terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Townships

Estou ainda no começo, mas hoje tive um dos dias mais marcantes aqui na África que mexeu com meu coração e minha reflexão.
Stanford, o transfer que falei lá no primeiro post, morou e tem parentes em Townships, seu filho há alguns anos organiza quinzenalmente uma ação comunitária de uma grande almoço e distribuição de presentes para as pessoas desses lugares. Em julho desse ano o filho de Stanford, que era agente de segurança, foi acordar seu companheiro de trabalho que dormia no carro o mesmo se assustou e acabou dando um tiro no parceiro, que morreu. Stanford deu continuidade a ação do filho e hoje (22/12) ele promoveu a festa comunitária especial de Natal. Fizeram muita comida, kits de presentes e distribuíram para as crianças e adulto e regada a muito som local. Stanford sempre convida os seus amigos e alunos da escola a ir lá dar uma força.
Chegamos lá e tinha um tantão de gente, de crianças, de mães carregando seus bebês juntinhos em suas costas. Estavam numa imensa alegria.
Lá as casas já são daquele tipo que comentei quando falei das Townships em post anterior, feitas pelo governo, não cheguei a entrar em nenhuma. Quanto às diferenças e semelhanças com as favelas do Brasil: as casas de governo da África são um pouco maiores que as do Brasil, há espaço no entorno da casa, que aliás é de areia, o chão aqui nos lugares onde não há asfalto é só areia; a cidade é plana, logo, lá também é, a bola que rola nas ruas é oval – bolas de Rugby, o esporte mais popular aqui – assim como no Brasil, nada de árvores.
As pessoas revelam suas lutas e carências por suas muitas cicatrizes, marcas de profundos machucados, cortes, picadas de insetos. Mas o mais impressionante é ver tais marcas nas crianças, tão sofridas desde tão cedo e carregando isso em seus corpos. Uma adolescente, vaidosa, bonita, sem todos os dentes da frente, dos dentes, o apodrecimento e a perda acontece para muitos já nos primeiros anos de vida, eu de aparelho e óculos virei atração exótica no meio da criançada, perguntavam o que era aquilo nos meus dentes e diziam que eles são bonitos. Outra tão novinha e um olho de vidro, um menininho com seqüelas de uma imensa queimadura em todo o rosto, doenças de pele e picadas mal curadas, conjuntivites...pesado.
Por outro lado, elas esbanjavam alegria e disposição. Extremamente carinhosas e afim de aprender com aquelas pessoas um tanto diferentes delas que estavam ali ajudando na festa.
Da criançada toda, duas me chamaram mais atenção. Um eu apelidei de “dancer”, ode uns 8 anos, de família rastafári, que veio nos contar o porque de os coleguinhas estarem pentelhando ela lá, o motivo do sarro é porque ela fuma maconha. Pela religião e os ritos que ela propõe os pais e ela usam a erva.
Tenho um vídeo dela cantando lindinha uma música que ela disse ser indiana.
Passamos a tarde na festa. E repito que essa foi uma das experiências mais importantes que já passei na vida, quiçá a maior.

Bo-Kaap

Meu primeiro dia de aula foi bem legal, curso puxado, bastante intensivo, mas to me virando bem. Na classe de 8 pessoas dois são suíços e o restante só brasileiros. Aliás, os brasileiros resolveram vir em comboio pra cá, cada um veio por si, mas tanto na acomodação quanto na escola estamos em maioria.
Ao vir pra cá jurei que não queria nem saber de ficar em contato com brasileiros, pra ficar na imersão, contudo tá tudo bem, pois como tem uns gringos no meio acabamos falando em inglês para ninguém ficar de fora da conversa.
As aulas são de manhã então tenho a tarde livre. Nesse primeiro dia fui conhecer Bo-Kaap que é um dos mais antigos bairros, cheios de casinhas coloridas onde em uma delas está instalado um museu. Nas varandas das casas alguns senhores muito velhinhos e um deles se dispôs contar a história do lugar. Bo-Kaap é onde foram instalados os ex-escravos daqui, imigrantes de várias partes do norte e lá permanecem suas raízes, pois quase nenhum dos descendentes abandonaram as casas. Destes criou-se a tradição do carnaval daqui que acontece em 2 e 3 de janeiro quando saem blocos na rua. Vou poder ver!
Esse dia foi de calor mais intenso e apesar de aqui ventar muito, quase não havia vento nesse dia, tava de torrar!
Nesse primeiro contato com o povo mesmo algumas coisas chamaram muito a atenção. Mesmo sendo um dia de trabalho o trem, principal transporte daqui, não é muito lotado. É nele onde se percebe a diversidade de idiomas.
Vejo que todos os dias vagam pessoas pelo trem pedindo um trocado, mas muito diferente do Brasil o pedido é na forma de canção. Andam lentamente, normalmente em duas pessoas e cantam juntos com uma beleza emocionante canções tradicionais e ao que parece religiosas, reconheço pelos “halellujas” no meio de outras palavras. É forte.
Ainda com relação ao trem soube que só é preciso ter cuidado com o horário de fim de expediente ao passar pela estação chamada Woodstock, que é um bairro industrial e mais ermo e perigoso e nela entram os caras meio “função” que se aproveitam dos trabalhadores estão voltando pra casa com grana. Mais cedo ou mais tarde que isso, tudo ok.
No dia seguinte, após a aula encontrei a pessoa que contatei por e-mail antes de vir, a Heather, ela é DJ aqui e trabalha numa loja de discos que também é um Sound System chamado African Dope. Esta loja ainda não conheci, mas ela me levou em uns lugares do centro que jamais como turista eu conheceria, uma delas bem bacana com bastante vinil, mas quase nada de reggae. Percebi que aqui não é forte a cultura do vinil, mas consegui encontrar um disco bem interessante de música africana, um grupo chamado The Warriors, de groove pesado.

Primeiros Ares

Cheguei ao destino programado. E na saída, como estava no “pacote” o transfer a espera para me trazer à acomodação. Inclui na minha vinda um curso intensivo de inglês, pois bem, inglês sulafricano, né? O forte sotaque é notável. Todos aqui falam em africaans, mais alguma língua das 11 oficializadas, mais o inglês. Logo, um inglês cheio de “rrrrrr”, aquele “r” que posso comparar com o falado pelos antigos sambistas, sabem? “Ice Crrream” rsrs.
Esse transfer, chamado Stanford, é funcionário da escola, ele busca os alunos no aeroporto e é também uma espécie de guardião dos mesmos aqui na acomodação, todo dia vem, dá uma olhadinha, uma conversadinha. Um senhor muito simpático e receptivo, assim como praticamente todos aqui em Cape Town.
De sua van tive o primeiro olhar sobre a cidade. Ao fundo, e assim é de qualquer lugar da cidade que se olhe, a enorme Table Mountain, uma belíssima Mesa (nome oficial para aquele tipo de formação geomorfológica....geógrafos de plantão) e ao lado suas Mesetas, formações tais quais a Table Mountain, contudo de menor dimensão.
Em poucos minutos já pude ver retratos de desigualdade. Ao lado da estrada duas grandes favelas, aqui chamadas de townships, e no mesmo espaço algumas moradias ao que parecem construídas pelo governo. Cada uma delas pelo jeito não comportam as famílias, já que absolutamente todas as casinhas tem um puxadinho de maderit na parte de trás.
A diferença com as periferias do Brasil é que as casas não se ampliam pra cima, crescem pros lados.
Estou instalada no bairro Observatory, é um lugar muito bonito, todo de casinhas antigas. Próxima a estação de trem de mesmo nome e daqui para o centro é preciso pegar esse trem e andar três estações. É bem rápido.
Como cheguei no domingo, quase ninguém na rua. E na sede de aproveitar ao máximo já fui ao centro. Lá é bem urbano mesmo. Grandes prédios, cheios de vidro, praças, calçadões e nada de gente. Os poucos que caminhavam eram na maioria moradores de rua (mesmo assim, nem se compara a quantidade de São Paulo), policiais e uns caras tomando cerveja dentro de uns minimercados.
Aos domingos aqui os estabelecimentos maiores não vendem bebida alcoólica e outra, beber na rua, nem pensar!!! Ninguém escapa, o guarda para e você toma multa! Soube pelas pessoas que pelo alcoolismo e tudo o que este pode acarretar, o governo passou a ser pesado nesse sentido. Faz parte do controle inclusive o preço da bebida, nem uma cervejinha é muito barato; em reais, uma long neck de alguma cerveja local é o equivalente a R$ 5.
Voltei para Observatory e andando pelo bairro, já no início de noite ouvi um som bem familiar vindo de uma portinha, observei um pouco e resolvi entrar. Um pequeno pub de reggae chamado Tagore’s. O dono é um indiano, Kevin, e lá como seus parceiros e ajudando não só a servir, mas ficando de boa, tomando, fumando e conversando junto, um jamaicano erradicado aqui à 19 anos, o Leroy e também o Phillip, sulafricano que trabalha no Tagore’s no início das noites, de dia é operário da Volkswagen e ainda acha tempo para trabalhar como ator. Além dos dois, o rastaman Sebo que toca nyabinghi lá e em outras casas.
Tomei uma brejinha local deliciosa, Windhoek enquanto conversei, contei um tanto da cena de reggae do Brasil e fui embora com o compromisso de levar discos do Quilombo Hi-Fi pra bela coleção de vinils da casa.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Novos posts

Ola! Primeiro, desculpem pela falta de acentos, estou em outro pc.

Abri o blog recentemente e pelo natal e feriado aqui (dia 27) so vou atualiza-lo provavelmente dia 28.

Ja tenho mais dois textos prontos sobre coisas marcantes que ja passei aqui.
Em poucos dias ja fui de um extremo ao outro e muita coisa me emocionou...

Bem, voces vao ver.

Essa demora e porque a internet aqui e realmente muito lenta e onde teria mais tranquilidade para acessar e postar eu nem tenho acesso.

Devagarinho vou contando e colocando fotos. Acessem!

Bom Natal!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Welcome to África – Re Ya Le Amohela


Eis que pisei em solo africano e cá estou. Pela primeira vez e pela realização de um sonho.
Certa de que esse é apenas um pedacinho de grandes extensões e diversidade. Contudo, garanto que só nesse lugarejo impressionam as diferenças.
Em Cape Town a predominância é negra, visível e claramente, o que quebra um pouco aquele papo de que a África do Sul é uma “África branca”, seguidos destes estão os indianos, há muitos por aqui, em terceiro em quantidade estão os brancos.
Tudo começa já no vôo de vinda: comissários e comissárias de bordo, chefes, sub-chefes (não sei bem como se diz) são todos belos,esbeltos e alinhados negros. Do piloto e co-piloto eu não sei, mas o restante dos funcionários, pretos.
Viajei pela South Africa Airlines, e esta ao que me é nítido é a única empresa com esse perfil de funcionários, afinal, as demais empresas optam por outro perfil, por um tipo de “boa aparência” bastante limitada, para não dizer racista. Assim, os trabalhadores do avião me chamaram a atenção.
Fiz uma escala em Joanesburgo. Infelizmente nada pude conhecer da cidade, sem tempo! E graças a essa pressa fiz meu primeiro contato mais direto com um sulafricano e pude ter uma conversa rápida. Em busca da minha troca de vôo ele veio me oferecer ajuda, confiei, ele estava uniformizado e com crachá, assim como outros pelo aeroporto. Esses são os porters, que não só empurram o carrinho de malas e esbanjam simpatia, mas despacham a sua mala rapidinho, furando a fila mesmo (!), orientam sobre o portão de embarque e, como eu suspeitava, pedem aquele “do café”, como costumamos dizer no Brasil. Por seu crachá e uniforme eu achei que esses não eram os tais carregadores informais que li por ai, mas acredito que por conta da copa recente, ganharam uma formalidade, mas não ficou pra trás o tradicional costume. Dei a gorjeta, claro, ganhei um belo sorriso e costas que seguiram voando pra longe em busca de mais um turista.
Rumei pra Cape Town, mais duas horas de vôo, totalizando em 10 horas o meu trajeto.